Segunda-feira, Fevereiro 20, 2006

O Colonialismo Farmacêutico

Acordei, espreitei pela janela... estava um belo, solarengo e alegre dia, daqueles em que olhamos para a rua e vemos as pessoas a sair de suas casas em direcção ao sítio de venda da sua força de trabalho alegres, pois o céu está sem uma única nuvem, não há a mínima probabilidade de precipitação. Toda a gente parece feliz, é um facto adquirido, todos sorrimos nestes dias um pouco mais que nos outros, todos já acordámos num dia destes e dissemos, Hoje vai ser um dia fantástico, mas aquilo que todos parecemos não compreender é que há sítios do nosso triste mundo em que as pessoas acordam e perguntam, Será que sobrevivo às próximas 24 horas. (Se o leitor está atento e conhece a obra do nosso José Saramago, reparou que as últimas linhas foram redigidas no seu estilo, não é um cópia, mas sim uma homenagem.). É claro que todos sabemos desde que somos crianças que há pessoas neste mundo que morrem à fome, isso é uma vicissitude do nosso modelo económico à escala planetária, o Capitalismo (atenção, não estou aqui a tentar levar este assunto para a eterna discussão se o Capitalismo deve ou não ser substituído por um sistema superior, não é disso que se trata, trata-se, isso sim, de admitir esse defeito do capitalismo, que é uma verdade incontornável), contudo o que não sabemos é o que se passa nesses países que, em termos de gravidade, ultrapassa de longe a exploração a que os países subdesenvolvidos (nomeada e principalmente em África) estão sujeitos. Como há poucas linhas atrás vos relatava, encontrava-me num desses dias em que, do cimo de toda a nossa ignorância e egoísmo, julgamos que o mundo somos nós, todavia, no fim do dia (quando o sol já não se encontrava no horizonte) entrei no cinema para ver o filme “The Constant Gardener” e repentinamente o céu estrelado da minha vida passou a bastante nublado com fortes possibilidades de dilúvio. A “sweet illusion” em que vivemos (que tanto se assemelha à Matrix, preconizada na trilogia cinematográfica) aliena-nos da realidade. Enquanto segurava com uma mão o copo de litro de uma bebida doce, e com a outra um chocolate qualquer que aumentava a minha felicidade, a verdade sanou a minha sede e pôs fim á minha gula. O filme possui um assunto essencial à volta do qual gira uma boa “estória de Amor”. Podemos prescindir da parte amorosa, pois não é isso que torna este filme digno de memória. O assunto fulcral do filme, e razão do seu impacto violento nas pessoas, é a questão das Grandes Farmacêuticas fazerem de África um gigantesco centro de cobaias. Estas multinacionais instalam-se em países com uma população paupérrima (que não tem condições financeiras sequer para a nutrição mínima necessária) e oferecem-lhes “apoio médico” através dos seus medicamentos, mas sob a condição de os interessados em ajuda (nestes países quem não está interessado?) assinarem um documento que, entre outras coisas, autoriza também os testes experimentais de medicamentos recém criados, ou seja, autoriza que essas pessoas sejam usadas como cobaias e se em algum momento dos tratamentos as pessoas quiserem deixar de ser cobaias (como é uma violação do contrato previamente assinado), as multinacionais cometem o crime (aos meus olhos, não aos da lei) de retirar os cuidados médicos a essas famílias condenando-as muitas vezes à morte por doenças que podiam e estavam a ser tratadas até à “rescisão” do contrato. Todavia, o mais chocante deste negócio, é que muitas vezes estes medicamentos (como experimentais que são) têm efeitos secundários imprevistos, que acabam por matar as tais “cobaias” (por favor, não nos podemos esquecer que não se trata de ratos, mas sim de seres humanos, iguais a qualquer um de nós, iguais a mim, e iguais ao leitor). Acontece que, estas empresas são multinacionais com um peso excessivamente grande na economia mundial (fruto da segunda e terceira fases do capitalismo - Capitalismo Monopolista e Monopolista de Estado), para se perceber melhor, o peso das transnacionais (não só farmacêuticas) na economia globalizada é superior ao de muitos Estados. O volume de vendas da General Motors, por exemplo, é superior ao PIB da Dinamarca e o da Exxon Mobil supera aquele da Áustria, nem sequer faço a comparação com o nosso PIB. As 500 maiores empresas controlam mais de dois terços do comércio mundial e nestas incluem-se Farmacêuticas como a Merck(16º lugar no ranking em 2003), a Pfizer(20º), a Abbott Laboratories(48º), Schering-Plough(89º), referindo apenas as mais conhecidas, porque nas 500 maiores empresas do mundo incluem-se 48 empresas farmacêuticas... A globalização neo-liberal tornou-se a ditadura económica mundial de poucas centenas de transnacionais. Mas estas empresas não são apenas gigantescas máquinas de fazer dinheiro, são também importantes centros de decisão e as suas influências estendem-se à política dum modo que julgava impossível, estas empresas fazem de tudo para conseguir atingir o famigerado lucro,e quando digo de tudo, é para ser levado à letra. Não querendo lançar afirmações sencionalistas, pergunto apenas: alguém duvida que o poder económico decide as questões políticas que quer? Mas será que alguém acredita que as generosas contribuições da Enron aos partidos políticos dos EUA, e directamente a George Bush e Dick Cheney, foram feitas por simpatia? Como todos os dias podemos constatar as transnacionais compram os políticos que querem, e se não os conseguirem corromper rapidamente os afastam do poder (“by any means necessary”/pelos meios que forem necessários...). Posto isto, e voltando ao caso das farmacêuticas e suas cobaias em África, quando as suas experiências não funcionam na perfeição e daí advém a morte de alguém, estas empresas comunicam à família que o seu ente querido faleceu por uma doença qualquer comum naquela região, como a Sida ou a Tuberculose, e rapidamente retiram todos os registos dessa pessoa dos hospitais em que esteve internada, e retiram-na inclusive dos registos estaduais, como se essa pessoa nunca tivesse existido, para apagar todas as provas das experiências mal sucedidas... Os doentes do Terceiro Mundo não contam, para as grandes transnacionais farmacêuticas. O mercado e a ganância indicam quais são as doenças que “merecem” ser curadas e quais as que não merecem que a indústria farmacêutica se interesse por elas. De 1.223 novos medicamentos postos em circulação entre 1975 e 1997, só 11 se endereçavam às doenças tropicais. Envoltas na sua busca incessante do lucro, as farmacêuticas consideram como nada "rentável" destinar fundos a doenças que, embora bastante difundidas, atacam populações com escasso ou nenhum poder aquisitivo. A lógica irracional do mercado leva a gastar milhões de dólares em pesquisas para o Viagra, e zero centavos para novos tratamentos contra a malária, que mata anualmente quase 2 milhões de pessoas.
Muitos destes casos passam-nos despercebidos, já que nós vivemos numa sociedade que é controlada pelo poder económico, que se consegue chegar ao ponto de influenciar decisões estaduais, também influencia os media, media esses que cumprem o seu importante papel na manutenção da nossa “sweet illusion”, a nossa “Matrix”. A este propósito (e não quero parecer obcecado com o filme “The Matrix”), no primeiro filme da trilogia, Cypher (uma personagem que trai a sua equipa, denunciando-os aos agentes da matrix, em troca de uma nova inserção na sweet illusion) diz: “Ignorance is bliss” (A ignorância é uma benção), e de facto, parece-me que é isto que a nossa sociedade nos incute desde que nascemos. Em 1996, em Kano (Nigéria), deu-se um um surto de cólera combinado que foi acompanhado por um surto de meningite, dentro de pouco tempo milhares de crianças tinham meningite. Em poucos dias a Pfizer instalou-se em Kano e enviou para esta região um avião com um novo medicamento de seu nome Trovan, ora, havia um pequeno problema que não pareceu incomodar muito a Pfizer, é que o Trovan nunca tinha sido experimentado em crianças... A farmacêutica começou a incluir pacientes dos hospitais estatais no seu programa Trovan forjando documentos, e o resultado desta experiência foi a descoberta que as crianças nigerianas sentiram graves efeitos secundários, como artroses nos joelhos. O Trovan não foi nunca utilizado no mundo Ocidental porque apresentou demasiados efeitos secundários, embora a Pfizer o negue.
Cabe-nos lutar contra tudo isto... é difícil, eu sei, muito difícil, mas será que queremos mesmo viver uma vida fictícia, uma “hollow life”? Eu recuso-me, espero que o leitor se junte a mim na luta pela sobrevivência, não a minha, não a sua, mas a de todos...

1 comentários:

Rui Reis - Leiria disse...

Este teu texto está fantástico, muito bem redigido, e para além de nos despertar para a vergonha, repito, vergonha, que é a industria farmacêutica (com o devido respeito para com as pessoas que, de uma forma digna e respeitável, nelas laboram), resume, ou transcreve, a mensagem do aludido filme, o qual, infelizmente, ainda não pude visionar. Basta recuar uns meses no tempo, e recordar que várias farmacêuticas foram condenadas a uma coima (comum) de 7,500.000€ por terem borlado o estado em 25.000.000€ numa accção conjunta relacionada com testes para diabéticos. Cobraram mais 25.000.000€ do que o deveriam (roubaram 5.000.000 contos) e restituiram 1.500.000 contos. A coima foi restituir 30% do produto do roubo. Dá para acreditar? E pergunto eu - Então essas empresas não deveriam ter devolvivo os 25.000.000€ acrescidos da coima? Não! Ficamos assim e podem continuar a fornecer o estado Português. Boa. E depois, vem o Ministro da Saúde dizer que a saúde gratuita vai terminar, pois claro, e eu, que até aufiro um vencimento muito acima da média, pago os meus impostos (todos) a tempo e horas, e porque sofro de uma grave doença do foro oncológico, estou sujeito a morrer se não tiver dinheiro para suportar o tratamento, ou parte dele. Tenho 37 anos, trabalho (continuamente desde os 18, recordo, contribuinte irrepreensivel, e desculpa a falta de modéstia), logo, já conto com 19 anos de descontos, e assisto a este assalto de braços cruzados. Concordo plenamente com o teu ponto de visto expresso no Blog, ficando, como sabes, a ressalva de que o capitalismo não é responsável por tudo o que há de mal. Eu sou adepto do capitalismo e contribuo para o seu desenvolvimento, no entanto, o que falha são as pessoas. Há gente que não tem escrúspulos absolutamente nenhuns. São vergonhosos. Mas esses, poderão gozar o sabor do dinheiro mas nunca o da honestidade, porque esse, não tem preço, e se tivesse, o dinheiro deles não chegaria para o comprar. É que há coisas que não se compram na farmácia...